Matías Pourrain, argentino de 34 anos que atua no Miami United, passou 26 dias sob custódia das autoridades migratórias dos Estados Unidos após ser detido pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE) no Aeroporto Internacional de Fort Lauderdale, na Flórida.
Em entrevista ao The Athletic, o jogador relatou ter passado por quatro centros de detenção, sido transferido da Flórida para o Texas e enfrentado condições que classificou como “tortura” e “puro terror”.
O que aconteceu?
No dia 6 de agosto, Pourrain e seus companheiros de equipe aguardavam o embarque para um voo com destino a Los Angeles, onde o Miami United disputaria uma partida pelo campeonato nacional. O grupo já havia passado pela inspeção da TSA, agência responsável pela segurança aeroportuária dos Estados Unidos, e aguardava apenas a chamada para embarque.
Enquanto caminhava até um bebedouro para encher sua garrafa antes da viagem, o argentino foi abordado por dois homens vestidos à paisana. Sem qualquer identificação policial visível, eles pediram seus documentos.
A princípio, Pourrain não se preocupou. Desde que chegou aos Estados Unidos, em 2019, havia entrado legalmente no país com visto de turista e, posteriormente, obtido autorização de trabalho. Além disso, havia renovado recentemente sua carteira de habilitação, o que o fazia acreditar que não possuía qualquer pendência relevante com as autoridades.
Após solicitarem outros documentos, como passaporte e autorização de trabalho, os homens se identificaram como agentes do ICE e afirmaram que precisavam verificar algumas informações relacionadas ao seu processo migratório.
Segundo o jogador, um dos agentes garantiu que o procedimento levaria menos de dez minutos. Convencido de que retornaria rapidamente, Pourrain enviou uma mensagem ao técnico Claudio Frean.
“Volto em 10 minutos.”
Pouco depois, porém, a situação mudou.
Outros agentes chegaram ao local e informaram que o argentino seria preso. Segundo Pourrain, ninguém explicou claramente o motivo da detenção.
Confuso, o meio-campista perguntou o porquê da prisão.
Em resposta, ouviu de um dos agentes:
“Você vem conosco da maneira fácil ou da difícil.”
Sem oferecer resistência, o jogador teve as mãos e os tornozelos algemados antes de ser levado para uma van sem identificação. Ainda no aeroporto, ele afirma ter ouvido agentes comentando sobre utilizar uma saída alternativa para evitar serem vistos por equipes de televisão que estavam no local.
Dentro do veículo, Pourrain foi informado de que receberia explicações ao chegar ao centro de detenção provisório de Miramar, na Flórida, cerca de 32 quilômetros do aeroporto.
Enquanto isso, seus companheiros de equipe e a comissão técnica do Miami United não faziam ideia do que havia acontecido.
Após a prisão, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) divulgou uma nota oficial sobre o caso:
“Em 6 de agosto de 2026, o ICE prendeu Matias Alejandro Pourrain, um estrangeiro em situação irregular da Argentina, no Aeroporto Internacional de Fort Lauderdale. Em 12 de novembro de 2019, Pourrain foi admitido legalmente no país pelo Aeroporto Internacional de Atlanta, com autorização para permanecer por seis meses. Ele decidiu ficar após 11 de maio de 2020, em violação às leis de nossa nação. Pourrain permanecerá sob custódia do ICE enquanto aguarda seus procedimentos de remoção e receberá pleno devido processo legal.”
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Vivência em Miramar
Ao The Athletic, Pourrain relembrou os dias vividos no centro de processamento de Miramar.
“Miramar foi a pior coisa que já aconteceu na minha vida”, afirmou.
Segundo o argentino, ele foi colocado em uma cela de aproximadamente 15 metros quadrados com outros 70 homens.
O jogador recorda dois mictórios posicionados um de frente para o outro, um bebedouro que mal funcionava e um ambiente constantemente tomado pelo mau cheiro.
Além disso, afirma ter passado as primeiras 24 horas algemado a uma cadeira e quase três dias sem se alimentar.
“A fome é a pior coisa que existe. Dói muito. O pão que davam tinha mofo. Eu conseguia ver pequenos círculos pretos nele. Não era comestível.”
Pourrain conta que resistiu enquanto conseguiu, mas acabou cedendo quando a fome se tornou insuportável.
Somente cerca de 24 horas após ser detido, ele conseguiu fazer o primeiro telefonema desde que havia sido retirado do aeroporto.
Do outro lado da linha estava sua esposa, também argentina, que conheceu na Flórida.
Ela pediu que ele permanecesse forte, continuasse se alimentando e se hidratasse, além de garantir que faria tudo para tirá-lo daquela situação.
Mas, segundo o jogador, até mesmo beber água era um desafio.
“O bebedouro ficava perto de onde as pessoas urinavam. A água escorria pelo bico por onde a urina havia passado. Era impossível beber.”
As condições da cela também o impressionaram.
“Pessoas dormiam ao lado do vaso sanitário. Quando alguém urinava, os respingos atingiam quem estava deitado. Era desumano.”
Procurado pelo The Athletic, o DHS negou as acusações.
“As alegações de que existem condições inadequadas nos centros de detenção da ICE são falsas. A ICE possui padrões mais elevados do que a maioria das prisões dos Estados Unidos. Todos os detentos recebem três refeições por dia, água limpa, roupas, cama, chuveiros, sabonete e itens de higiene. Também têm acesso a telefones para se comunicar com familiares e advogados. Nutricionistas certificados avaliam as refeições.”
Transferência para outros centros de detenção
Após quatro dias em Miramar, Pourrain foi transferido para o Centro de Processamento Krome North, em Miami.
Pouco tempo depois, foi levado para o Centro de Detenção de Glades, em Belle Glade, também na Flórida.
Foi nesse período que a diretoria do Miami United acionou a advogada especializada em imigração Regina Borges de Moraes, que assumiu o caso gratuitamente.
Segundo ela, a acusação contra o jogador é de permanência nos Estados Unidos além do período autorizado pelo visto.
A advogada também representa Neisser Sandó, jogador da seleção cubana que enfrenta uma situação semelhante.
No Centro de Detenção de Glades, Pourrain recebeu um uniforme laranja, destinado aos detentos classificados como de risco médio.
Chegada a Texas
Depois da passagem pelos centros de detenção na Flórida, veio mais uma transferência.
Colocado novamente em uma van, Pourrain acreditava que seria enviado para outra unidade próxima. Durante a viagem, chegou até a dormir.
Mas, ao ouvir outros detentos mencionarem a palavra “aeroporto”, entrou em pânico.
Horas depois, descobriu que estava sendo levado para um centro de detenção próximo a Laredo, no Texas, perto da fronteira com o México.
Sem conseguir entrar em contato com familiares ou advogados, passou a temer que pudesse ser deportado.
Enquanto isso, sua família e sua defesa sequer sabiam onde ele estava.
Segundo Regina Borges de Moraes, o nome do argentino nem mesmo aparecia no sistema de rastreamento da ICE.
O alívio só veio ao chegar ao Centro de Detenção Rio Grande.
Lá, Pourrain percebeu que continuava em território americano e recebeu um uniforme azul, reservado para pessoas com processos migratórios pendentes.
Futebol o salvou
Em meio aos dias de incerteza no Texas, foi justamente o futebol que voltou a fazer diferença na vida de Pourrain.
Os detentos tinham acesso a atividades recreativas ao ar livre e utilizavam uma bola de futebol murcha para disputar partidas improvisadas.
Quando decidiu jogar, o argentino rapidamente chamou a atenção.
A habilidade demonstrada dentro de campo lhe rendeu respeito entre os demais detentos.
“Eu queria ficar mais na minha. Não me sentia confortável em me aproximar de pessoas que estavam ali há muito tempo. Você nunca sabe quem está ao seu lado”, afirmou.
Enquanto permanecia preso, sua história ganhou repercussão tanto nos Estados Unidos quanto na Argentina.
Para Pourrain, isso foi decisivo para sua libertação.
“O futebol me ajudou fora de campo também. Isso viralizou. Muita gente me apoiou e, graças a Deus, consegui sair. Talvez, sem o futebol, ninguém soubesse da minha história.”
No dia 28 de agosto, após o pagamento de uma fiança de 20 mil dólares (cerca de R$ 100 mil), o argentino finalmente deixou o centro de detenção.
As lembranças dos 26 dias sob custódia, porém, continuam vivas.
“Foi uma tortura. Mentalmente, foi puro terror.”
O post Jogador argentino relata pesadelo após passar 26 dias detido pelo ICE: “Foi uma tortura” apareceu primeiro em Gazeta Esportiva.


