O solo de dança contemporânea investiga dores, fragilidades e possibilidades do corpo em cena; montagem será apresentada de 7 a 12 de outubro, no Teatro Engrenagem, na Asa Norte
Até onde o corpo consegue ir? E o que acontece quando seus próprios limites se tornam matéria de investigação artística? Essas são algumas das questões que atravessam Sem Osso, solo de dança contemporânea interpretado por Lívia Bennet e dirigido por Édi Oliveira. A montagem será apresentada de 7 a 12 de outubro, no Teatro Engrenagem, na 708 Norte, e integra o projeto MECÂNICORGANICO. Os ingressos estão disponíveis pelo Sympla.
Em cena, o corpo é colocado no centro da experiência, sem o apoio de projeções, vídeos ou outros aparatos tecnológicos. A escolha, que surgiu durante o processo de criação, deslocou a proposta inicial do espetáculo – que investigaria a relação entre corpo e novas tecnologias – para uma pesquisa concentrada na própria fisicalidade da intérprete. Movimentos, quedas, contrações, deslocamentos e diferentes estados corporais passam a revelar tanto a potência quanto a vulnerabilidade de um corpo que se movimenta para além dos padrões aos quais está habituado.
Para Lívia, essa investigação também se relaciona diretamente com sua experiência cotidiana como artista. A intérprete convive com uma hérnia na cervical e uma protrusão na lombar, condições que vêm sendo tratadas desde janeiro deste ano. O processo de preparação para o espetáculo envolve acompanhamento fisioterapêutico, fortalecimento muscular, acompanhamento nutricional e períodos de descanso. A rotina de preparação evidencia o esforço físico necessário para sustentar uma criação que exige do corpo intensidade, precisão e disponibilidade.
“Descobri que meu corpo enfrenta limites diários, não somente por conta de dores musculares pela intensidade que o trabalho me propõe a investigar, ou pelas lesões já adquiridas ao longo dos anos, mas também pela qualidade de movimento em momentos específicos, onde meu corpo não está habituado a se mover. Nesse trabalho precisei acessar, investigar e observar para que fosse possível entender tais caminhos. Mas percebi também, diante disso, o quão potente e expressivo esse corpo é capaz de ser”, conta Lívia.
A preparação física, nesse sentido, não aparece apenas como uma exigência para a execução do espetáculo, mas como parte da própria pesquisa artística. “Desde o inicio do processo, tenho feito fisioterapia de uma a duas vezes por semana, com foco na coluna e na cervical. Meu fortalecimento muscular acontece de quatro a cinco vezes na semana, para dar conta de toda a minha dor crônica. Tenho sido acompanhada por um nutricionista e meu descanso aos domingos são inegociáveis”, relata a bailarina.
Sem Osso parte ainda de referências filosóficas como a ideia de “corpo sem órgãos” e propõe uma investigação sobre um possível “corpo sem osso”: um corpo capaz de dilatar seus limites, deslocar padrões e experimentar outras formas de existência para além de estruturas rígidas. A queda, presente na linguagem do trabalho, surge como elemento de vulnerabilidade, mas também como possibilidade de resiliência, transformação e apaziguamento.
Criação
O espetáculo é resultado de um projeto que levou cerca de dez anos para ser viabilizado devido a desencontros de agenda. A montagem integra uma sequência de trabalhos desenvolvidos por Édi Oliveira entre 2024 e 2026 e representa o encontro entre uma pesquisa de longa duração sobre o corpo e a experiência de uma intérprete que, em cena, precisa negociar continuamente entre aquilo que seu corpo consegue fazer, aquilo que ele resiste em fazer e aquilo que ainda pode descobrir.
Atriz, bailarina e professora, Lívia Bennet foi bailarina do Basirah Grupo de Dança Contemporânea entre 2000 e 2012 e da Foco Companhia de Dança entre 2017 e 2024. Também foi fundadora e intérprete da Trupe de Argonautas, coletivo de circo, dança e teatro no qual atuou entre 2005 e 2018. Sua trajetória reúne trabalhos de criação, interpretação, coreografia e formação artística.
Édi conta que o trabalho de direção tem sido instigante. Ele destaca que Lívia tem muitos recursos técnicos e, ao mesmo tempo, sempre aberta à pesquisa de novas possibilidades de abordagem do movimento.
“Lívia é uma intérprete que tem consciência do potencial de seus recursos técnicos, mas que também conhece suas fragilidades e vulnerabilidades que, de certo modo, fazem parte da dramaturgia do espetáculo . Isso tem gerado, no processo criativo, uma fluência nas etapas de criação e nos experimentos, e tem me provocado, como diretor, a buscar estratégias para conduzir essa intérprete a lugares de performatividade que sejam desafiadores, instigantes e prazerosos”, revela o diretor.
Mestre em Artes Cênicas pela Universidade de Brasília (UnB), Édi Oliveira iniciou sua trajetória como bailarino e intérprete na Anti Status Quo cia de dança e posteriormente no Basirah-Núcleo de dança contemporânea, onde também atuou como coreógrafo, intérprete e figurinista. Em 2000, criou o grupo dançapequena, para o qual dirigiu e coreografou diversos espetáculos. Atualmente, é professor das disciplinas de dança do curso superior de Teatro do IESB.
Com seis apresentações no Teatro Engrenagem, Sem Osso convida o público a acompanhar de perto um corpo em estado de investigação: um corpo que sente, limita-se, cai, resiste e encontra, justamente nessas fronteiras, novas possibilidades de movimento e expressão.
As sessões de 7 a 9 de outubro serão às 20h. Nos demais demais dias, o espetáculo está marcado para começar uma hora mais cedo, às 19h. As sessões dos dias 11 e 12 contarão com intérprete de Libras e audiodescrição.
O espetáculo Sem Osso é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF).
SERVIÇO – Espetáculo Sem Osso
Data: 7 a 12 de outubro de 2026
Local: Teatro Engrenagem, SHCGN 708 709 Bloco B Entrada 30 Subsolo – Asa Norte, Brasília
Ingressos: pelo Sympla, https://www.sympla.com.br/evento/espetaculo-sem-osso-com-livia-bennet/3554980?referrer=www.google.com&referrer=www.google.com
Redes: https://www.instagram.com/mecanicorganico/
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