O evento reuniu 60 mulheres de diversas áreas rurais do Distrito Federal
Ela acordou cedo, como quase todos os dias, mas hoje vestiu uma camisa diferente. A camiseta bege enviada pela Emater-DF que descreveu bem o que vai dentro do peito: “Mulheres em TransformAção”. Bárbara Alves da Veiga, saiu do Assentamento Márcia Cordeiro Leite, em Planaltina, e foi comemorar o Dia Internacional da Mulher Rural, neste 15 de outubro, no edifício sede da Emater-DF, na Asa Norte, junto com outras 60 mulheres rurais do Distrito Federal.
Nascida e criada na roça, no auge dos seus 70 anos, Bárbara é uma das mais de 8 mil mulheres rurais do Distrito Federal que recebem assistência e apoio da Emater-DF. Mulheres que produzem alimentos, cuidam das famílias e movimentam comunidades inteiras sem, muitas vezes, receberem o reconhecimento devido.
Na chegada, o acolhimento falou mais alto. “Hoje o dia é muito especial, são várias oficinas, é um momento de crescimento, diálogo, de conversa, de compartilhar ideias, histórias e experiências”, disse a diretora-executiva da Emater-DF, Loiselene Trindade, na abertura oficial do evento. Ela recebeu as participantes ao lado do presidente da Emater-DF, Cleison Duval, e da equipe organizadora do evento, liderada por Selma Tavares e Sheila Nunes.
“Hoje o dia é de vocês, que lutam todos os dias para cuidar da lavoura, da casa e para cuidar também das suas finanças. Dia de valorizar os produtos que vocês transformam em negócios. A Emater está aqui para auxiliar, para mostrar que vocês são guerreiras e podem ter a atividade que quiserem realizar, e que com isso vocês podem trazer riqueza para suas famílias”, destacou o presidente da Emater-DF.
O primeiro gesto do dia foi o café da roça. Pãozinho, cuscuz, bolo caseiro, suco, salada de frutas e café coado. Cada detalhe preparado para dizer: vocês são vistas, vocês são importantes.
Em seguida, as mulheres foram divididas em três grupos, que circulavam por oficinas simultâneas. Na primeira parada, a matéria-prima acessível a todas: banana, aveia e cacau em pó, que se transformaram em brigadeiros gostosos e saudáveis. As extensionistas da Emater-DF mostraram que é possível usar ingredientes comuns para criar doces sem tirar os olhos da saúde.
Na oficina seguinte, o mel. Elas aprenderam a temperar com pimenta e gengibre, descobrindo que um produto que ela já dominava pode ganhar nova roupagem, novo sabor e, quem sabe, novos clientes. O aprendizado foi uma nova manipulação que cabe no bolso e ainda pode virar renda.
A terceira oficina foi a mais delicada de todas. O bordado no papel transformou agulha, linha e paciência em mimos capazes de acompanhar um produto ou virar presente para alguém querido. Ali, o que se ensinava não era só técnica: era a certeza de que o olhar sensível pode fazer elementos simples virarem arte, identidade e valor.
Antônia Nunes se apresenta como coletora. Em sua chácara, no núcleo Rural Lage da Jibóia, em Ceilândia, ela aproveita todo o Cerrado que já estava lá quando ela chegou e extrai seus frutos como castanha de baru, cagaita e jatobá. Para ela, aprender com a Emater-DF é uma alegria. “A gente tinha o material, mas não tinha o conhecimento para transformar esse material em renda. Então tem sido muito bom, porque o conhecimento abre portas”, afirma a agricultora e extrativista.
Após as oficinas, durante o almoço, teve participação especial da produtora rural Maria Rodrigues, do Assentamento El Shaday, cantando para as mulheres. No corredor ao lado, empregados e visitantes da empresa prestigiavam a feirinha “Prosa, troca e venda”, onde quitutes, artesanatos e acessórios feitos por elas encontraram compradores e admiradores.
O ponto alto do dia foi a dinâmica “Cooperar para prosperar”, que desafiou cada mulher a colocar na mesa seu produto, junto com o seu maior desafio. Novamente reunidas em grupos, o objetivo era pensar coletivamente nas potencialidades e nas soluções.
Maria das Graças Ferreira, produtora rural de hortaliças em Brazlândia, colocou em palavras os desafios que muitas mulheres rurais também vivem. “O maior desafio na área rural hoje em dia é a gente vender o produto da gente, porque se não tiver banca na feira, não tem como a gente vender. A Emater ajuda a gente a acessar o programa do governo Pnae [Programa Nacional da Alimentação Escolar], mas o que não vende para o Pnae, a gente tem que sair vendendo picado. E hoje também não tem mais funcionário bom que queira trabalhar na roça junto com a gente”, explicou Maria das Graças.
“Com essa dinâmica, o nosso objetivo era mostrar a importância da organização coletiva. Porque elas trabalham muito, mas geralmente sozinhas e se você unir forças, pode conseguir preços melhores para comprar material, pode ter mais volume para fechar uma comercialização e pode dividir custos como transporte ou maquinários, por exemplo”, destacou a extensionista rural Selma Tavares, que conduziu o momento com as mulheres.
O dia especial se despediu com o Bingo da Prosa e do Riso. Cerca de 20 prêmios entre ecobags, avental, arranjos de flores e chocolates foram entregues. Mas o bem mais valioso elas levaram no coração: a certeza de que seu trabalho não é em vão e que seus frutos fazem do campo um lugar cada dia melhor.
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